De Kudle Beach, na India, a Colombo, no Sri Lanka…

Fevereiro 8, 2009 por Julia Hue

Viajar pela Índia NUNCA é fácil. Façam as contas: saí de Kudle Beach, estado de Karnataka, costa oeste da Índia, quase 14h00 do dia 5. Mais de vinte minutos de caminhada depois, cheguei na rodoviária de Gokarna e, às 14h45, peguei um ônibus até Kumta, que fica a uns 35km de Gokarna, viagem que dura uma meia hora.

Em Kumta, meu próximo ônibus atrasou quase uma hora (o que me ferrou legal mais na frente…): eram quase 17h00 quando o ônibus partiu rumo a Mangalore, e eram 21h40 quando chegou no seu destino. E por conta do atraso, perdi meu trem para Chennai por fatídicos 10 minutos… Nem estressei.

Na Índia, não adianta meeesmo estressar (toda vez que algo assim acontece, lembro imediatamente de uma frase que tem no meu guia: “expecting the unexpected – India rewards those who go with the flow”… e é a mais pura verdade. Adotei isso como um mantra…). Então, improvisei: vi que tinha um ônibus de partida para Bangalore, e pulei pra dentro dele. Cheguei em Bangalore por volta das oito da manhã do dia seguinte, e lá fui eu até outra rodoviária para pegar o ônibus das 10h00 para Chennai.

Eram mais de seis da tarde quando cheguei na rodoviária de Chennai, sem ter onde dormir. E só uma observação: Chennai ainda não era meu destino final! Primeiro pensei em dar uma olhada na rodoviária para ver se era possível dormir por lá mesmo, já que já fiz isso algumas vezes aqui na Índia. Além do mais, às 4h30 da manhã eu tinha que estar no aeroporto… mas eis que cheguei na rodoviária e descobri que era possível pagar Rs 100 para dormir numa espécie de alojamento (claro que separado entre homens e mulheres…).

Resolvi encarar, porque já estava viajando há mais de 24 horas direto, exausta, suja e faminta. Fui até um mercadinho fuleiro e comprei biscoitos, mel e água. Tomei um banho de balde e tentei dormir. Às três e pouco da matina, a velhinha indiana fofa que toma conta do dormitório feminino no turno da noite me acordou. Arrumei minhas coisinhas e fui esperar o ônibus noturno.

Não eram nem cinco da manhã quando cheguei ao aeroporto. Fiz o check-in e embarquei. O avião partiu às 7h30. Uma hora depois, o avião pousou em Colombo, capital do Sri Lanka. O aeroporto é melhor do que muito aeroporto de primeiro mundo, e isso me impressionou muito (depois eu conto mais sobre minhas impressões sobre o Sri Lanka…). Desembarquei, passei pela imigração, peguei minhas coisas e saí do aeroporto.

Peguei um ônibus que leva até a rodoviária em Negonbo, e de lá peguei outro ônibus até Kandy, segunda maior cidade do Sri Lanka, que fica no interior do país. Cerca de três horas depois, cheguei ao meu destino final.

Ainda demorei cerca de duas horas para achar uma pousada mais ou menos barata (isso não existe no Sri Lanka). Depois de mais de 48 horas de viagem, caí morta.

p.s.: e então você vai me perguntar: “mas onde foi que você se meteu de setembro até agora???”. Bom, para não deixar ninguém na mão, vou dando upload aos poucos nos posts que estão faltando, assim conseguirei cobrir a lacuna desses 5 ultimos meses…

Ladakh Festival

Setembro 3, 2008 por Julia Hue

Ladakh Festival é uma mostra da cultura local: músicas e danças alegóricas, mostra de arco e flecha, jogo de pólo, muitas cerimônias Budistas. Esse é o grande e mais esperado evento da região, que acontece todo ano entre 1º e 15 de setembro, marcando também o final da alta temporada.

Ladakh Festival

Fomos conferir o primeiro dia do festival, que abre com ladakhis em trajes típicos desfilando com suas roupas tradicionais pelas principais ruelas de Leh, dançando ao som de músicas típicas e uma procissão de monges da ordem Gelugpa – os “yellow hats” vem no final fechando o “desfile”; a cidade inteira pára para ver o grande acontecimento. No final da tarde fomos para arena de pólo, onde teve uma cerimônia de abertura seguida de horas de artes performáticas.

Ontem, segundo dia do festival, eu, Ily, Uri e Yaara pegamos um ônibus cedinho e fomos até Spituk, um monastério que fica cerca de meia hora de Leh, logo ali do outro lado do vale. No caminho passamos pelas zonas militares, completamente destoantes em meio a essa paisagem desértica tão magnífica. Esquisito. E um pouco assustador também.

Spituk é um gompa bem bonito que tem duas vistas panorâmicas contrastantes: de um lado, para o aeroporto militar; do outro, para a suntuosa cordilheira do Himalaya. Além de conhecer o monastério, aproveitamos para conferir o que chamam de Lama Dancing, uma arte performática tradicional que integra parte do programa do Ladakh Festival: são quatro lamas dançando ao som ritmado de instrumentos budistas (quais são?). Durante a performance, eles trocam de trajes e máscaras umas 15 vezes, e essas máscaras que eles usam durante as danças são, em sua maioria, de deidades iradas (aquelas caras assustadoras que lembram um pouco máscaras chinesas).

Quando acabou, nós quatro descemos para a estrada e ficamos esperando o ônibus no meio de um deserto debaixo de um sol escaldante.

O jantar foi gostoso, fomos num restaurante tradicional indiano — além de nós quatro, estavam também Yariv, mais um israelense, e um casal de franceses, o Jean e a Sabinne. A Sabinne me contou sobre o trekking de 5 dias que ela tinha acabado de fazer com o marido pela cordilheira do Himalaya, e acabou me passando as dicas. Foi conversando com ela que eu enfiei na cabeça que é exatamente esse trekking que eu vou fazer.

No mais, hoje é a vez da Ily ficar de cama, tadinha; talvez por conta do restaurante de ontem, vai saber… De qualquer forma, estou tentando retribuir o cuidado que ela teve comigo.

Por conta disso, hoje acabei não fazendo muita coisa. Acabei passando a tarde no restaurante que a gente tem ido todos os dias, e fiquei lá lendo horas a fio…

Explorando Leh

Agosto 31, 2008 por Julia Hue

Depois de dias e mais dias de “aclimatação”, conseguimos finalmente vencer o mal das alturas – e a preguiça… –, deixar o nosso oásis maravilhoso por algumas horas e visitar algumas coisas aqui pertinho da cidade.

Primeiro fomos (eu, Ily, Uri, Yaara e Axel) em direção ao Palácio de Leh, que fica no meio de uma colina bem íngreme, aqui mesmo em Leh. No caminho fui passando por um bocado de pequenos monastérios que ficam encravados nas montanhas. Entrei em um deles, chamado Chamspa Lhakhang – conhecido como “o templo vermelho de Maitreya” – que foi construído no século XV. Dentro desse templo tem uma estátua de Buddha Maitreya de uns 10 metros de altura, linda! Ao lado de cada lado dela tem mais duas estátuas menores: uma de Avalokiteshvara e outra de Manjushri, deidades budistas.

Saí dessa gompa e continuei subindo a colina, passando por mais templos, e entrei em cada um deles. Adorei um que era meio escuro e tinha um monte de thangkas – pinturas sagradas budistas – em todas as paredes… Só no Palácio de Leh em si é que acabamos não entrando, porque já estava fechado.

Em Leh

(na foto, Ily, Axel e eu junto das bandeirinhas budistas de oração - by Uri)

Depois de vencer a íngreme subida e alcançar o último templo, o pôr-do-sol nos saudou e um deslumbrante facho de luz iluminou a vila de Leh lá embaixo. Um espetáculo.
 

vista de Leh

(na foto: maravilhosa luz sobre Leh)

Na descida, eu, Ily e Yariv (que encontramos lá em cima ao acaso) paramos para ver um puja num templo minúsculo e escuro, que mais parecia uma caverna. Adoramos.

No dia seguinte, depois de algumas paradas no caminho para um chazinho, fomos visitar a Shanti stupa, que foi construída pelos japoneses nos anos 80 para disseminar uma mensagem global de paz. Ela fica no alto de outra íngreme colina, onde a vista é de tirar o fôlego. Eu, Ily, Uri e Yaara ficamos horas lá, só curtindo a paisagem, olhando para a maravilhosa cordilheira do Himalaya.

vista da cordilheira dos Himalayas

(na foto: Yaara, Ily, eu e os Himalayas… – by Uri)

A nossa “família” aqui em Leh já começou a dispersar: Axel, o francês, coloca os pés (e a bicicleta) na estrada amanhã cedo, rumo a Kargil, que fica em Kashmir, fronteira controlada pelo Paquistão. Mike e Ygal, os irmãos americanos, vão embora em dois dias para Varanasi. Mike ficou hospedado no nosso quarto (meu e de Ily) nos últimos dois dias, porque ele teve mal das alturas, tomou tudo quanto foi droga errada para tentar ficar bem e acabou tendo que abandonar um trekking no primeiro dia porque não se agüentava em pé. Ygal seguiu o trekking sozinho e voltou hoje. Nils, o alemão, está em outro trekking dificílimo, mas volta para Leh em breve. Sendo assim, jantamos todos juntos no Jeevas, restaurante “ocidental” que fica em Changspa Road, a rua mais turística da cidade. Aqui tem uma fotinho do jantar:

Jantarzinho...

(na foto: Yariv (israelense), Uri (israelense), Yaara (israelense), Ily (austríaca), Axel (francês), Mike (USAdos) e Ygal (USAdos)…)

Comida Indiana

Agosto 28, 2008 por Julia Hue

Bom, para mim a altitude não foi tanto um problema. Já a comida indiana, sim.

Eu explico: no mesmo dia em que cheguei a Leh, jantei comida indiana. No dia seguinte repeti a dose. A comida estava maravilhosa, mas paguei o preço passando mal nas 36 horas seguintes. Muita, mas muuuuita dor no estômago que me deixou de cama o dia todo. Só saí dela para mudar de pousada, porque Nils encontrou um lugar muito melhor pra ficar, uma pousada chamada Jigmet Guest House.

(esta é a vista dos quartos; a cordilheira do Himalaya está lá atrás!)

Então logo cedo deixamos a pousada na rua barulhenta para trás. A Ily, o Uri e a Yaara (casal israelense) vieram me ajudar com as malas, porque eu mal tinha condições de me manter em pé. Passei o dia a água e chá de hortelã, colhido diretamente do jardim da nossa nova pousada, um desbunde, não posso reclamar.
Bom, dadas as informações físicas, podemos passar ao resto. A pousada Jigmet tem esse enooorme jardim com flores coloridíssimas e uma grande horta com verduras e legumes. Tem também um monte de macieiras, que dá aos quartos – que ficam em volta do jardim –, um perfume doce delicioso. Tem fome? Vai lá e pega uma maçã. Chato pra burro. Tão chato que a gente só tem deixado a pousada para comer.

Aqui eu continuo dividindo o quarto com a Ily. Uma parte do pessoal que viajou junto de Manali até aqui está na mesma pousada (eu, Ily, Nils, Uri, Yaara, Mike e Ygal – dois irmãos americanos). Viramos uma pequena “família”. E ela está crescendo: ontem à noite reencontramos Axel, um francês, e Jan, alemão. Eles estão viajando de bicicleta e conheceram-se no meio do caminho de Manali a Leh. A coincidência fica por conta de que eu peguei o mesmo vôo que Axel de Londres para Delhi, e numa das paradas no meio do deserto no caminho de Manali até aqui nos encontramos novamente. Ele de bicicleta, eu de ônibus. No final, ele e Jan juntaram-se a nós logo que chegaram a Leh.

Para os próximos dias, estamos planejando de trekkings a visitas aos tantos Gompas (monastérios budistas) que têm por aqui.

De Manali a Leh, a segunda estrada rodoviária mais alta do mundo!

Agosto 26, 2008 por Julia Hue

Depois de 36 horas de viagem, finalmente cheguei em Leh! A estrada que liga Manali a Leh é um sufoco, mas a paisagem é absolutamente maravilhosa. Passei por lugares incríveis e inesquecíveis para chegar até aqui.
Leh fica no extremo norte da Índia, no distrito de Ladakh, Estado de Jammu & Kashmir. Aqui fica o principal reduto budista tibetano da Índia, conhecido com “pequeno Tibet”.

O clima é extremamente seco. O ar, além de rarefeito – Leh fica a 3.505m de altitude – é gelado, mas o sol compensa esquentando pra chuchu. E a paisagem… bom, a paisagem é um total desbunde: estou rodeada pela cordilheira do Himalaya, o teto do mundo – o segundo pico mais alto do planeta, o K2, fica a uns 100km daqui, na zona de disputa entre Índia e Paquistão. Ao redor de Leh é só deserto de montanhas avermelhadas enormes com picos nevados, que vão fácil a mais de 7.000m de altura. Lindo demais.

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Há dois dias a chuva resolveu dar uma trégua e o dia amanheceu lindo em Manali, sem uma nuvem sequer no céu. Foi a primeira vez que consegui ver as montanhas monstruosas à volta da cidade. É aqui a porta de entrada para a cordilheira mais alta do mundo: o Himalaya.

A viagem começou cedo. Paljor me acompanhou, às 5h30 da matina, até o lugar de onde o ônibus sai rumo a Leh. Um casal e mais dois caras – todos estrangeiros – esperavam o mesmo ônibus que, aliás, era um espetáculo à parte: veio diretamente dos anos 70, uma verdadeira lata velha que me fez duvidar de que chegaria inteira ao destino final.

A maioria das pessoas embarcou em Vashisht, vila que fica logo depois de Manali. No ônibus estávamos em 14 pessoas, de diferentes cantos do mundo: um casal de franceses, uma britânica, uma australiana, um italiano, um alemão, um japonês, dois irmãos americanos, um casal israelense, uma austríaca e eu. E pelo fato de termos que passar as 36 horas seguintes dividindo o parco teto do mesmo ônibus, era natural que nos conhecêssemos logo na primeira hora de viagem.

De Manali a Leh são 475km de uma estrada que é uma antiga via militar, quase toda de terra. E como já disse por aqui, os quilômetros não significam muita coisa, as viagens aqui são sempre longas.

Logo nas primeiras horas de viagem a paisagem vai mudando lentamente através da janelinha do ônibus, passando de verde a completamente marrom com picos nevados. O céu é do azul mais puro, profundo e intenso que já vi.

No início da noite chegamos a Sarchu, onde paramos para dormir. Sarchu não é uma vila, é apenas um acampamento fixo no meio do caminho entre Manali e Leh a mais de 4.000m de altitude, demarcando o início de Ladakh. Dormir nessa atitude não é fácil, e algumas pessoas do ônibus começaram a apresentar o tal “mal das alturas” já neste ponto.

Na manhã seguinte partimos bem cedo, rumo a segunda passagem rodoviária mais alta do mundo – Tanglang La – a 5.360m de altitude. Descemos para tirar fotos, e a sensação é esquisita: não há oxigênio suficiente e o corpo responde mal, com um pouco de letargia. Não tive dor de cabeça nem nada, mas parecia que havia alguém sentado no meu pulmão. Mas logo que descemos um pouco, a sensação passou.

Já quase em Leh despontam os primeiros vilarejos, e o cenário é maravilhoso: a cordilheira do Himalaya como pano de fundo e um monte de stupas e gompas (monastérios budistas tibetanos) pelo caminho. As casas são todas de pedras e adobe (tijolo de terra crua) com esterco, caiadas ou da cor da terra. As janelas são de madeiras entalhadas, a maioria enfeitada com motivos budistas. Lindas. Pensei comigo que era a primeira vez que via vilas tão lindas na Índia, que finalmente encontrara um lugar que não era mal construído, feio, com falta de espaço e problemas graves de saneamento. Bom, quase isso, porque foi só chegar mais perto de Leh para constatar a coisa mais triste do mundo: o que o ser humano coloca a mão, ele estraga. Claro que não é tão grave quanto em Delhi ou mesmo McLeod Ganj, mas há rastros de lixos por onde quer que o ser humano passe, mesmo que seja aqui no meio do nada, na cordilheira mais alta do mundo, no meio do deserto. Triste.

E eis que surge Leh: barulhenta, cheia de carros, buzinas, pessoas, vacas, buzinas, turistas, cachorros, buzinas. Sim, estou na Índia, como pude esquecer?

Desembarcamos na bagunçada Leh, todos exaustos. Estava calor e era começo de noite. Por conta da altitude, carregar toda a bagagem foi um sufoco. Eu tive que parar para recuperar o fôlego a cada 20 metros, e as mochilas pesadíssimas se tornaram um sério fardo. Depois de andar por mais de meia hora, nos dirigimos a primeira pousada que apareceu na frente, numa das ruas principais. Terminei por dividir o quarto com Ily, a austríaca, e Nils, o alemão. Famintos, fomos todos ao restaurante em frente, o Gesmo, comer comida indiana. Uma delícia!

Hoje acordei super cedo, completamente sem sono. Acima de 3.000 metros de altura o corpo estranha tudo, é uma bagunça. Até onde sei, demora cerca de uma semana para o corpo se adaptar e para produzir mais glóbulos vermelhos para conseguir transportar mais oxigênio necessário ao corpo. Por isso é altamente recomendável beber muita água e não fazer ABSOLUTAMENTE NADA nos primeiros dias. Eu, claro, estou obedecendo.

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Mal cheguei aqui e já estou completamente apaixonada pelo lugar. Eu, Ily e Nils saímos da pousada esta manhã, viramos a primeira esquina e demos de cara com altas montanhas ocres com seus palácios e gompas budistas. Ficamos os três, embasbacados, olhando para a paisagem surreal…
Incrível que apesar de sempre ter sonhado em conhecer o Himalaya, minhas expectativas ainda assim ficaram abaixo do que o lugar é. Sim, o Himalaya é meu lugar no mundo.

 

 

*obs.: a primeira estrada rodoviária mais alta do mundo é a que liga Leh a Nubra Valley, aqui pertinho. A passagem chama-se Khardung La, que fica a 5.602m de altitude. Aff…