Posts de Agosto, 2008

Explorando Leh

Agosto 31, 2008

Depois de dias e mais dias de “aclimatação”, conseguimos finalmente vencer o mal das alturas – e a preguiça… –, deixar o nosso oásis maravilhoso por algumas horas e visitar algumas coisas aqui pertinho da cidade.

Primeiro fomos (eu, Ily, Uri, Yaara e Axel) em direção ao Palácio de Leh, que fica no meio de uma colina bem íngreme, aqui mesmo em Leh. No caminho fui passando por um bocado de pequenos monastérios que ficam encravados nas montanhas. Entrei em um deles, chamado Chamspa Lhakhang – conhecido como “o templo vermelho de Maitreya” – que foi construído no século XV. Dentro desse templo tem uma estátua de Buddha Maitreya de uns 10 metros de altura, linda! Ao lado de cada lado dela tem mais duas estátuas menores: uma de Avalokiteshvara e outra de Manjushri, deidades budistas.

Saí dessa gompa e continuei subindo a colina, passando por mais templos, e entrei em cada um deles. Adorei um que era meio escuro e tinha um monte de thangkas – pinturas sagradas budistas – em todas as paredes… Só no Palácio de Leh em si é que acabamos não entrando, porque já estava fechado.

Em Leh

(na foto, Ily, Axel e eu junto das bandeirinhas budistas de oração - by Uri)

Depois de vencer a íngreme subida e alcançar o último templo, o pôr-do-sol nos saudou e um deslumbrante facho de luz iluminou a vila de Leh lá embaixo. Um espetáculo.
 

vista de Leh

(na foto: maravilhosa luz sobre Leh)

Na descida, eu, Ily e Yariv (que encontramos lá em cima ao acaso) paramos para ver um puja num templo minúsculo e escuro, que mais parecia uma caverna. Adoramos.

No dia seguinte, depois de algumas paradas no caminho para um chazinho, fomos visitar a Shanti stupa, que foi construída pelos japoneses nos anos 80 para disseminar uma mensagem global de paz. Ela fica no alto de outra íngreme colina, onde a vista é de tirar o fôlego. Eu, Ily, Uri e Yaara ficamos horas lá, só curtindo a paisagem, olhando para a maravilhosa cordilheira do Himalaya.

vista da cordilheira dos Himalayas

(na foto: Yaara, Ily, eu e os Himalayas… – by Uri)

A nossa “família” aqui em Leh já começou a dispersar: Axel, o francês, coloca os pés (e a bicicleta) na estrada amanhã cedo, rumo a Kargil, que fica em Kashmir, fronteira controlada pelo Paquistão. Mike e Ygal, os irmãos americanos, vão embora em dois dias para Varanasi. Mike ficou hospedado no nosso quarto (meu e de Ily) nos últimos dois dias, porque ele teve mal das alturas, tomou tudo quanto foi droga errada para tentar ficar bem e acabou tendo que abandonar um trekking no primeiro dia porque não se agüentava em pé. Ygal seguiu o trekking sozinho e voltou hoje. Nils, o alemão, está em outro trekking dificílimo, mas volta para Leh em breve. Sendo assim, jantamos todos juntos no Jeevas, restaurante “ocidental” que fica em Changspa Road, a rua mais turística da cidade. Aqui tem uma fotinho do jantar:

Jantarzinho...

(na foto: Yariv (israelense), Uri (israelense), Yaara (israelense), Ily (austríaca), Axel (francês), Mike (USAdos) e Ygal (USAdos)…)

Comida Indiana

Agosto 28, 2008

Bom, para mim a altitude não foi tanto um problema. Já a comida indiana, sim.

Eu explico: no mesmo dia em que cheguei a Leh, jantei comida indiana. No dia seguinte repeti a dose. A comida estava maravilhosa, mas paguei o preço passando mal nas 36 horas seguintes. Muita, mas muuuuita dor no estômago que me deixou de cama o dia todo. Só saí dela para mudar de pousada, porque Nils encontrou um lugar muito melhor pra ficar, uma pousada chamada Jigmet Guest House.

(esta é a vista dos quartos; a cordilheira do Himalaya está lá atrás!)

Então logo cedo deixamos a pousada na rua barulhenta para trás. A Ily, o Uri e a Yaara (casal israelense) vieram me ajudar com as malas, porque eu mal tinha condições de me manter em pé. Passei o dia a água e chá de hortelã, colhido diretamente do jardim da nossa nova pousada, um desbunde, não posso reclamar.
Bom, dadas as informações físicas, podemos passar ao resto. A pousada Jigmet tem esse enooorme jardim com flores coloridíssimas e uma grande horta com verduras e legumes. Tem também um monte de macieiras, que dá aos quartos – que ficam em volta do jardim –, um perfume doce delicioso. Tem fome? Vai lá e pega uma maçã. Chato pra burro. Tão chato que a gente só tem deixado a pousada para comer.

Aqui eu continuo dividindo o quarto com a Ily. Uma parte do pessoal que viajou junto de Manali até aqui está na mesma pousada (eu, Ily, Nils, Uri, Yaara, Mike e Ygal – dois irmãos americanos). Viramos uma pequena “família”. E ela está crescendo: ontem à noite reencontramos Axel, um francês, e Jan, alemão. Eles estão viajando de bicicleta e conheceram-se no meio do caminho de Manali a Leh. A coincidência fica por conta de que eu peguei o mesmo vôo que Axel de Londres para Delhi, e numa das paradas no meio do deserto no caminho de Manali até aqui nos encontramos novamente. Ele de bicicleta, eu de ônibus. No final, ele e Jan juntaram-se a nós logo que chegaram a Leh.

Para os próximos dias, estamos planejando de trekkings a visitas aos tantos Gompas (monastérios budistas) que têm por aqui.

De Manali a Leh, a segunda estrada rodoviária mais alta do mundo!

Agosto 26, 2008

Depois de 36 horas de viagem, finalmente cheguei em Leh! A estrada que liga Manali a Leh é um sufoco, mas a paisagem é absolutamente maravilhosa. Passei por lugares incríveis e inesquecíveis para chegar até aqui.
Leh fica no extremo norte da Índia, no distrito de Ladakh, Estado de Jammu & Kashmir. Aqui fica o principal reduto budista tibetano da Índia, conhecido com “pequeno Tibet”.

O clima é extremamente seco. O ar, além de rarefeito – Leh fica a 3.505m de altitude – é gelado, mas o sol compensa esquentando pra chuchu. E a paisagem… bom, a paisagem é um total desbunde: estou rodeada pela cordilheira do Himalaya, o teto do mundo – o segundo pico mais alto do planeta, o K2, fica a uns 100km daqui, na zona de disputa entre Índia e Paquistão. Ao redor de Leh é só deserto de montanhas avermelhadas enormes com picos nevados, que vão fácil a mais de 7.000m de altura. Lindo demais.

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Há dois dias a chuva resolveu dar uma trégua e o dia amanheceu lindo em Manali, sem uma nuvem sequer no céu. Foi a primeira vez que consegui ver as montanhas monstruosas à volta da cidade. É aqui a porta de entrada para a cordilheira mais alta do mundo: o Himalaya.

A viagem começou cedo. Paljor me acompanhou, às 5h30 da matina, até o lugar de onde o ônibus sai rumo a Leh. Um casal e mais dois caras – todos estrangeiros – esperavam o mesmo ônibus que, aliás, era um espetáculo à parte: veio diretamente dos anos 70, uma verdadeira lata velha que me fez duvidar de que chegaria inteira ao destino final.

A maioria das pessoas embarcou em Vashisht, vila que fica logo depois de Manali. No ônibus estávamos em 14 pessoas, de diferentes cantos do mundo: um casal de franceses, uma britânica, uma australiana, um italiano, um alemão, um japonês, dois irmãos americanos, um casal israelense, uma austríaca e eu. E pelo fato de termos que passar as 36 horas seguintes dividindo o parco teto do mesmo ônibus, era natural que nos conhecêssemos logo na primeira hora de viagem.

De Manali a Leh são 475km de uma estrada que é uma antiga via militar, quase toda de terra. E como já disse por aqui, os quilômetros não significam muita coisa, as viagens aqui são sempre longas.

Logo nas primeiras horas de viagem a paisagem vai mudando lentamente através da janelinha do ônibus, passando de verde a completamente marrom com picos nevados. O céu é do azul mais puro, profundo e intenso que já vi.

No início da noite chegamos a Sarchu, onde paramos para dormir. Sarchu não é uma vila, é apenas um acampamento fixo no meio do caminho entre Manali e Leh a mais de 4.000m de altitude, demarcando o início de Ladakh. Dormir nessa atitude não é fácil, e algumas pessoas do ônibus começaram a apresentar o tal “mal das alturas” já neste ponto.

Na manhã seguinte partimos bem cedo, rumo a segunda passagem rodoviária mais alta do mundo – Tanglang La – a 5.360m de altitude. Descemos para tirar fotos, e a sensação é esquisita: não há oxigênio suficiente e o corpo responde mal, com um pouco de letargia. Não tive dor de cabeça nem nada, mas parecia que havia alguém sentado no meu pulmão. Mas logo que descemos um pouco, a sensação passou.

Já quase em Leh despontam os primeiros vilarejos, e o cenário é maravilhoso: a cordilheira do Himalaya como pano de fundo e um monte de stupas e gompas (monastérios budistas tibetanos) pelo caminho. As casas são todas de pedras e adobe (tijolo de terra crua) com esterco, caiadas ou da cor da terra. As janelas são de madeiras entalhadas, a maioria enfeitada com motivos budistas. Lindas. Pensei comigo que era a primeira vez que via vilas tão lindas na Índia, que finalmente encontrara um lugar que não era mal construído, feio, com falta de espaço e problemas graves de saneamento. Bom, quase isso, porque foi só chegar mais perto de Leh para constatar a coisa mais triste do mundo: o que o ser humano coloca a mão, ele estraga. Claro que não é tão grave quanto em Delhi ou mesmo McLeod Ganj, mas há rastros de lixos por onde quer que o ser humano passe, mesmo que seja aqui no meio do nada, na cordilheira mais alta do mundo, no meio do deserto. Triste.

E eis que surge Leh: barulhenta, cheia de carros, buzinas, pessoas, vacas, buzinas, turistas, cachorros, buzinas. Sim, estou na Índia, como pude esquecer?

Desembarcamos na bagunçada Leh, todos exaustos. Estava calor e era começo de noite. Por conta da altitude, carregar toda a bagagem foi um sufoco. Eu tive que parar para recuperar o fôlego a cada 20 metros, e as mochilas pesadíssimas se tornaram um sério fardo. Depois de andar por mais de meia hora, nos dirigimos a primeira pousada que apareceu na frente, numa das ruas principais. Terminei por dividir o quarto com Ily, a austríaca, e Nils, o alemão. Famintos, fomos todos ao restaurante em frente, o Gesmo, comer comida indiana. Uma delícia!

Hoje acordei super cedo, completamente sem sono. Acima de 3.000 metros de altura o corpo estranha tudo, é uma bagunça. Até onde sei, demora cerca de uma semana para o corpo se adaptar e para produzir mais glóbulos vermelhos para conseguir transportar mais oxigênio necessário ao corpo. Por isso é altamente recomendável beber muita água e não fazer ABSOLUTAMENTE NADA nos primeiros dias. Eu, claro, estou obedecendo.

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Mal cheguei aqui e já estou completamente apaixonada pelo lugar. Eu, Ily e Nils saímos da pousada esta manhã, viramos a primeira esquina e demos de cara com altas montanhas ocres com seus palácios e gompas budistas. Ficamos os três, embasbacados, olhando para a paisagem surreal…
Incrível que apesar de sempre ter sonhado em conhecer o Himalaya, minhas expectativas ainda assim ficaram abaixo do que o lugar é. Sim, o Himalaya é meu lugar no mundo.

 

 

*obs.: a primeira estrada rodoviária mais alta do mundo é a que liga Leh a Nubra Valley, aqui pertinho. A passagem chama-se Khardung La, que fica a 5.602m de altitude. Aff…

Tashi Delek!, o cachorro atropelado e o gato recém-nascido

Agosto 23, 2008

Chove tanto que minha diversão aqui em Manali tem sido sentar com Tsomo, filho de 9 anos de Paljor, para aprender tibetano depois que ele volta da escola. Além de ser um amor de menino e super curioso, Tsomo é o único da casa que fala inglês, então pedi a ele que me ensinasse algumas coisinhas — já sei que Tashi Delek, o mais básico de tudo, quer dizer “oi”, e que cudgi é “por favor” e thu chená é “obrigada”!

Ontem a chuva parou um pouquinho, então Pamu aproveitou para me levar pra conhecer Vashisht, vilarejo que fica ao norte de Manali. Não me perguntem quem é Pamu que não vou saber explicar, só sei que ela também mora no apartamento do Paljor, mas não é filha dele. E também não fala nadinha de inglês… uma pena, porque adoraria conversar com ela!

Vashisht tem hot springs (banhos públicos quentinhos), velhas casas de pedras e templos antigos dedicados ao deus hindu Rama. Aproveitei para tomar um chá no restaurante de uma das pousadas e apreciar vista do vale que, mesmo submergida na névoa das monções, era linda! Valeu o passeio!

Ontem a noite aconteceu algo curioso: estávamos todos aqui no apartamento e começamos a ouvir um cachorro chorar alto na rua. Tsering, amiga de Paljor que também mora no apartamento, foi até a rua para ver o que estava acontecendo. O cachorro gritava de dor, e ela não teve dúvidas: trouxe o cachorro, que tinha acabado de ser atropelado, para dentro de casa. Ela esquentou um monte de panos para aquecer o cachorro e tentar aliviar as dores e sofrimentos dele. E ela chorava junto. Na hora de dormir, ela colocou a caixa de papelão com o cachorro dentro ao lado da cama dela.

Por que estou contando isso? Porque achei bonito. Porque isso, pra mim, é a verdadeira compaixão. E não tem prática nem religião que ensine.

Tem também outra história que aconteceu com a Natascha: ela achou um gatinho recém-nascido no meio do mato numa ruela de Dharamsala. Ela não teve dúvidas: pegou o gatinho, levou pra casa e começou a cuidar dele (o que inclui dar mamadeira de 2 em 2 horas…). E no meio dessa compaixão toda ela ainda foi escrachada por uma monja que também freqüenta o templo do Dalai Lama porque, segundo ela, a Natascha deveria estar ocupada fazendo as práticas ao invés de gastar esse tempo precioso cuidando de um gato recém-nascido que dá tanto trabalho. Entendem a TOTAL incoerência?!!

Bom, a diferença entre o cachorro atropelado e o gatinho recém-nascido é que o cachorrinho não agüentou e morreu hoje de manhã cedinho. O gatinho, ao contrário, está a cada dia mais parecido com uma pêra de tanto que mama…

Com essas histórias eu comecei a pensar no nosso ego. Você já parou pra pensar onde é que ele termina? Quando é que você realmente faz algo em benefício de outro ser sem pensar em si mesmo?

De McLeod Ganj a Manali

Agosto 22, 2008

Cheguei hoje de manhã em Manali, também no estado de Himachal Pradesh. A viagem de ônibus de McLeod Ganj até aqui dura 10 horas, o que é um extremo contra-senso, já que apenas 150km separam as duas cidades. Mas é a Índia. E quem sou eu para discutir com a coerência indiana?

Embarquei no ônibus ontem à noite, junto com Paljor, rumo a Manali. Essa viagem bateu todos os recordes de viagens ruins que fiz na vida (e olha que já passei muito perrengue viajando de busão por aí…): foram 10 horas de forte chuva DENTRO do ônibus. Sim, minha gente, choveu em cima de todos os passageiros que estavam sentados nas janelas. E não estou falando de goteira, não… era chuva, mesmo, caindo lá do céu e atravessando o teto diretamente em nossas cabeças.

Na primeira parada que o ônibus deu, a chuva deu uma pequena trégua, e eu fui conversar com o motorista, achando que o problema das goteiras fosse só no lugar onde eu estava sentada. A resposta dele: “fica tranqüila, não vai mais chover, não, eu garanto”. Cinco minutos depois voltou a chover forte. E não parou nas próximas oito horas e meia. Acho que o motorista precisa melhorar as conexões dele com os deuses indianos…

Claro que não preguei o olho a noite inteira. Durante a viagem eu pensei no Rapha, que me mandou um email pouco antes de eu embarcar de Paris para Delhi dizendo que, se alguma situação apertasse, era para pensar bem forte na impermanência e relaxar. E era só no que eu conseguia pensar: “vai passar, vai passar, vai passar,…”

E passou, olha que coisa.

Cheguei encharcada em Manali, um horror. Fui com o Paljor direto para a casa dele, que é onde ficarei hospedada pelos próximos dias. O apartamento é um luxo, enorme para os padrões indianos, todo colorido e alegre, cheio de motivos tibetanos. A vantagem de ficar com Paljor e sua família é que poderei ver de perto e viver a rotina de pessoas que moram aqui, que é uma das coisas que mais gosto quando estou viajando. Ele não fala quase nada de inglês, mas estou sendo muito bem tratada por todos.

Paljor tem uma lojinha aqui na parte nova de Manali, onde vende artigos budistas tibetanos. Além disso, ele é diretor de uma fundação que ajuda a comunidade tibetana. Ele mesmo organiza e participa ativamente das manifestações pró-Tibet.

Fora esse centro novo de Manali, ainda não conheci muita coisa. Pelo menos consegui ver que é uma cidade que fica encravada no fundo de um vale com montanhas enormes em volta. E em dois dias, é daqui que parto em busca da grande realização da minha vida: minha viagem para Ladakh!